Tenho feito bolos
Tenho feito bolos.
A cozinha não é muito meu lugar, todo mundo sabe.
Mas tenho feito bolos.
Procuro por mim nos lugares a que não pertenço.
Então, sei lá, tenho feito bolos.
Não se animem. Não são muitos. O mundo, do jeito que está não comporta mais excessos. Entendam, por favor.
Tenho feito bolos pra me provocar a memória.
Tenho feito bolos pra dar um pouco de mim aos que me importam na vida, mas assim: aos pouquinhos. Com umas pausas aqui e ali.
Tenho misturado ingredientes pra entender que emoções são essas que também se misturam em mim.
Será que se eu bate-las bem certinho, enforma-las e submetê-las a uma temperatura quentinha, elas crescem e ficam cheirosas pra eu tomar com cafezinho?
Não riam, não. Sou um pouco amalucada, mas falo sério quando há uma urgência desses gestos.
Tenho feito bolo, porque o bolo de laranja é a primeira receita do caderno de receitas de minha mãe e ela gosta tanto! Faço-lhe, então, um carinho com bolo. Digo-lhe que a amo com um gostinho de laranja.
Bom, tenho feito bolos.
Ontem fiz outro bem simples e lembrei de minha avó. Sempre tão anáquica para o seu tempo. Tão afetuosa e desobediente. Em minha vida, meu presente.
A velha Leó me enchia uma xicrinha com essa mistura de sabor eterno: açúcar, manteiga e gemas de ovos. Me puxava pelo braço e me dizia baixinho: foge e vai comer escondido no quintal. E eu ia. Que engraçado dizer, mas: eu obedecia.
E é por lembranças como essas, que tenho feito bolos.
Esse simples, dei de presente. A alguém que combina tanto com essa palavra também. Que tá sempre ao contrário na corrente pra poder rir-se mais do mundo. Que sabe que avós têm esse gosto perpétuo e bom da hora do bolo com café.
Não vou nem falar nada mais, não.
Todo mundo vai saber quem é!



Comentários
Postar um comentário