Uma história sobre a palavra

Meu irmão é mais velho que eu 6 anos. Desde que nem me lembro, compartilho com ele um tanto de situações. Minha mãe conta que tendo que sair rápido certa vez, me deixou com ele uns minutos. Comecei a chorar sem razão e ela, ao chegar, pegou nós dois a chorar sem parar. Perguntou-lhe o que havia acontecido e ele explicou aos soluços que, sem saber mais o que fazer para me fazer parar de chorar, só lhe restou chorar também. Não sei direito, mas me pergunto se foi isso que fez com que não aguentássemos nunca mais ver, na vida, o outro de algum modo infeliz.
Tenho muitas histórias para contar sobre meu irmão. Ele era mestre em inventar…confusão. Sempre se metia em alguma e eu sempre fui sua cúmplice predileta. Sempre o protegia ou sofria quando não conseguia proteger. E sempre foi uma troca: de cuidados, de conselhos, de apoio, de jeitos teimosos de fazer as coisas. Foi por teimosia que ele aprendeu a tocar violão. Sozinho. Olhando. Repetindo. Repetindo. Repetindo. Até tocar lindamente. Até que ninguém nem nada o pudesse parar. Eu achava lindo e achava que seria pra sempre. Mas aí…

…Ele teve quatro AVCs em intervalos de 2 anos, antes de alcançar os 50 anos, sem ter nenhum motivo clínico aparente para fazer derrames. E ver meu irmão se derramar a cada 2 anos foi realmente assustador. Vê-lo sobreviver bravamente a tantos assombros foi lição. A sua teimosia finalmente havia ganhado razão. Foi por teimosia que ele levantou de cada derrame como se nada lhe tivesse acontecido. Mas acontecia. Acontecia no primeiro, no segundo, no terceiro…e a gente nem via. Quando o último veio, lhe deixou uma sequela difícil de ultrapassar sem muita teimosia. Afasia da fala. Vocês sabem o que é isso? Explico por alto: é a perda da fala parcial ou total, provocada por uma lesão no sistema nervoso, especificamente no hemisfério esquerdo do seu cérebro. E qual a consequência disso? Ele não consegue dizer às vezes algumas palavras ou frases inteiras; troca as palavras dando-lhes um sentido que não têm; tem dificuldades de entender as conversas; lê textos inteiros mas não consegue interpretá-los corretamente sem que nisso coloque imenso esforço. Sem contar com os estágios emocionais de baixa auto-estima e descrença em todas as capacidades que ele antes possuía. É claro que, passados 7 anos de muitos cuidados, ele já melhorou muito e é independente para tudo, mas irremediavelmente se transformou num sujeito mais calado, mais quieto e, como não podia deixar de ser, uma pessoa super sincera quando usa as poucas palavras que consegue para dizer o que precisa, porque simplesmente não conhece mais outros modos de dizer as coisas. E o silêncio, trazido pela ausência das palavras, alcançou seu violão, que de tão companheiro, depois de algumas tentativas frustradas, também silenciou.

Agora, estamos hoje lado a lado como deve ser entre irmãos tão cúmplices e vejam ainda que coisa: eu que tenho tando amor às palavras e ele sem conseguir dizê-las todas. Faço aqui uma pausa para desfazer um pequeno nó na garganta, porque hoje, apenas hoje, me dei conta disso.
Andávamos eu e ele pela rua para resolver uma das muitas coisas que resolvo com ele. Sempre aproveito esses momentos para ter com ele conversas de incentivo. Então, eu falava sobre talento. Dizia que algumas pessoas nasciam com muitos talentos e outras pessoas com quase nenhum. Aqueles com talentos tinham, portanto, uma oportunidade de deixar um mundo mais bonito para aqueles que não tiveram a sorte de nascer com um, de ensiná-los, de despertar neles emoções, sentidos ainda por descobrir. Como conhecer uma música linda se alguém não a toca? Como admirar uma pintura, se alguém não a pinta? Ou um livro se alguém não o escreve? Se não se criam lugares para inspirações não criamos futuros em que possamos aspirar ser outros. Expliquei-lhe isso falando bem devagar, para que não perdesse nenhuma palavra: que ele tinha um talento que muitos gostariam de ter e que ele tinha a chance de deixar o mundo de alguém mais bonito, melhor, mais interessante, mais inspirador.

Nesse momento ele parou no meio da calçada, colocou a mão no próprio coração e me disse:
- Isso que saiu de você agora…da boca…me deixou com uma coisa aqui (e bateu no coração). Você usa tanta palavra linda… Você sabe usar as palavras muito bem, minha irmã…Eu gosto.
E então ele me abraçou, quebrando o seu silêncio. E por ele ter entendido tanto, eu também me quebrei inteira. Nos derramamos um no outro ali, como se faz nas nostalgias. E acho que para ele e para mim esse foi uma espécie de derrame sem afasia.




Comentários

Postagens mais visitadas