Sobre ser passageiro

Sinto um prazer enorme em não dirigir. Há certas coisas que não são para certas pessoas. Vamos aceitar isso. Sem dramas. Dirigir carros não é pra mim. Ponto.

Eu sei, eu sei. Há momentos em que seria bom ou importante, mas…há marido, há filho, há serviços que podem ajudar com isso, há amigos…bençãos de uma vida que insiste em ser generosa comigo e me deixar flanar como boa passageira, comandando a trilha sonora da viagem, cantando em qualquer língua — ou pelo menos tentando — e até dançando a la “boneco do posto”, mexendo só o tronco, a cabeça e os bracinhos. Adoro!

Confesso a vocês numa boa: gosto desse lugar. Nele, posso observar a vida que corre ao lado. Imaginar a história das pessoas que esperam à margem. Sentir o vento lambendo a cara e os cabelos como os cachorros.

Gosto ainda, e pra caramba, de fotografar a inconstância da estrada, que é sempre diferente mesmo que o percurso seja igual. Alguns me dizem: “mas você já tirou essa foto mil vezes!”. Eu não vejo assim, porque pra mim não é igual. Cada dia que você passa no mesmo lugar é um dia diferente. O clima, a luz, os personagens, o olhar, suas emoções…você. Se eu fosse me pautar por isso, evitar a repetição, qual a razão de acordar todos os dias? Eu tenho uma perspectiva de um novo recomeço a cada abrir de olhos e moro no mesmo lugar há quase 20 anos, ao meu lado o marido com quem estou casada há 22 anos, um monte de questões que se repetem periodicamente…o que me motivaria a levantar? Um desejo profundo de não ser a mesma todos os dias, de não ver as coisas da mesma forma, de me deixar transformar pelas experiências do dia que estou prestes a viver.

Então não, meus amigos. Nunca resisto a essa tentação de registrar o que vejo e que toca os meus sentidos a cada vez. Perco a câmera — acreditem, isso já aconteceu -, mas não perco o momento.
Junto dos que amam dirigir pego carona com alegria. Que cada um seja feliz em seu lugar, fazendo o que gosta. É um acordo justo. Há quem goste da estrada, do motor, da velocidade. Desde que seja seguro, tudo bem pra mim. Há quem, como eu, goste das muitas histórias espalhadas pelos caminhos. Tudo é viagem. Tudo é percurso. Tudo nos levará para muito além do que já somos. E, por isso, tudo vale.

Aperto o cinto e solto mesmo o dedo no botão. Click.

(essas fotos são apenas algumas, das muitas que clico pelos caminhos que me atravessam)


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