Sobre costuras


A vida da gente é uma eterna costura. Pensa. Costuramos laços familiares, costuramos amizades, costuramos contratos com clientes, costuramos gente. Passamos a vida costurando objetos que se rasgam, arrebentam, descosturam e é sempre assim, de repente, num piscar de olhos. Quando a gente vê, arrebentou. E às vezes nem são coisas que necessitam de costura. É a própria vida mesmo. Escolher quais tecidos combinam, quais cores de linhas ou estilos de botões irão ou não sobressair, que agulhas precisaremos usar, que roupas queremos vestir e para quais dias. Digam-me: não é assim? As costuras são metáforas de nossas vidas. Bem, não sei se por influência materna, é assim na minha.
Minha mãe costurava. Ela aprendeu com sua tia esse amor pelas costuras. Não sei se tem a ver, mas minha mãe é uma das mulheres mais elegantes que conheço. É assim até hoje, do alto de seus 83 anos. Costurou roupas para seus filhos, costurou batas de batismos, costurou vestidos de primeira comunhão, costurou todo o enxoval de seu primeiro neto. Não foram tecidos que ela costurou, foram histórias, foram memórias.

Não aprendi com ela esse ofício. Ia com ela ao trabalho numa loja de roupas infantis e ficava ali, quietinha, entre linhas e fitas métricas, observando-a de longe. Seus movimentos, expressões, interações com aqueles moldes. Uma mestra. Ela não fez isso por toda a vida. Ela foi muitas outras profissões. Foi todas que precisou ser. A cada mudança, porém, a máquina de costura ia junto. Sim, porque certos hábitos não se abandonam. Minha mãe sempre foi muito habilidosa com todo tipo de trabalho manual. Pinta divinamente também, a sabida. Dela herdei alguns poucos talentos: um tico do jeito pra desenho (bem tico mesmo) e um tiquinho da letra caprichada, mas foi só. O resto é todo dela. Pertence a esse olhar que ela tem para o mundo. Um jeito bem específico de se apropriar do que vê.

E, como não podia deixar de ser, ela também costurou um sonho. Um sonho da vida inteira. Conhecer a Itália, particularmente Veneza. Arrumamos as malas nos seus 80 anos e partimos. Nós duas, de mãos dadas, companheiras como sempre fomos. Em Roma se decepcionou com a Fontana De Trevi, porque na cabeça dela a tal da Fonte era diferente. Não se espantem: minha mãe é assim. Encantou-se, no entanto, com as belas varandas floridas da Piazza Navona. Essas, se eu deixasse, ela ficaria admirando até o anoitecer. Em Florença, o por do sol na Ponte Vecchio, sobre o Rio Arno, arrebatou seu coração instantaneamente. Já as pizzas… Bem ela já havia comido melhores. Em Veneza, ah em Veneza! Como ela mesma descreveu, seu coração quase parou quando saiu da estação de trem. Seus olhos se encheram d´água como os canais da Veneza que ela imaginava em seus sonhos. Andou pelas ruas, pelos becos, se perdeu. Nada estava fora do lugar. Nada ali era ruim. Nada precisava melhorar. Era uma criança em constante estado de contemplação, admiração, alegria infinita. E eu ali, testemunha de tudo isso. No dia dos seus 80 anos ela estava em Veneza. Viveu, nesse dia, o sonho que costurou por toda uma vida. Foi lindo de viver! 

Ao voltarmos, já em casa, ela tirou um presentinho que havia comprado pra mim numa daquelas lojinhas das muitas vielas pelas quais passamos e me deu. Sem achar que aquilo era nada demais, disse apenas que era para eu lembrar para sempre dela e daqueles momentos que vivemos juntas.

Agora me digam: como eu poderia esquecer?


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