O dia que me pari
Andava
pela rua distraída quando, de repente, ouvi meu nome. Foi meu nome
mesmo que ouvi? Olhei à procura de alguém. Não vi ninguém. Dei dois
passos e ouvi de novo. De novo procurei. Passava por uma banca e, sei
que é estranho, mas era uma revista que me chamava. Ela me disse:
“Andréa, tô aqui pra você.” A chamada de capa aplacava o meu momento e
tive uma insana certeza: foi escrita pra mim.
Tenho
o hábito de começar a ler revistas de trás pra frente. Não sei o porque
exatamente. Essa revista me chamou, me cativou, me pegou pela mão e me
levou pelos caminhos em que foi escrita. Tive certeza que eram aquelas
pessoas que me levavam, não somente as palavras que escolheram para me
levar, mas as histórias que contavam. Quase pude sentir suas mãos.
Quando cheguei no texto da editora, estava assinado: Ana Holanda. E,
ali, tive a sensação de que já a conhecia. Talvez porque tenha começado a
revista de trás pra frente. Talvez ainda por ter percebido a extrema
sensibilidade da proposta de construção das matérias. Ou talvez até pela
escolha de uma turma boa de colunistas. Mas provavelmente, e penso
nisso cada dia mais, foi por ela ter se colocado em meu lugar e
adentrado a minha vida com uma assertividade assombrosa. Sem. Nem.
Saber. Que. Eu. Existia.
Fui
atrás dela nas redes. Mandei mensagem cuidadosa. Não queria que ela
pensasse que eu era uma louca. Outro hábito que tenho: tentar esconder
das pessoas a minha loucura. A gente sempre acha que está sozinha nisso.
Ana respondeu gentilmente. E seguiu nesse gesto, tendo que me aturar
bravamente, sabendo que não se contrariam os loucos. Sem nunca perder a
doçura jamais. Graças a isso pude ver que ela daria um curso de escrita
criativa e afetuosa. “Mas em São Paulo? Puxa, Ana! Faz um aqui no Rio
também?” Pedi eu, aflita. E ela, como se já não tivesse me atendido em
tanta coisa à distância, um dia o fez. E eu fui. E não fui sozinha.
Levei tudo que havia em mim para ser transformado. Fui sem saber o que
iria encontrar. Mal sabia eu que era comigo mesma esse encontro.
Tenho
meio século de vida. Sempre gostei de escrever. Mas entre gostar, saber
e estar preparada vai um longo caminho. Eu achava. Aprender sobre
escrita criativa e afetuosa foi a segunda experiência que mais
redimensionou a minha vida. A primeira foi o nascimento do meu filho.
Sem exagero algum. Parir um filho exige muito de nós. A vida inteira.
Exige que troquemos de lugar constantemente, exercita nosso olhar
generoso para fora de nós, nos deixa abertos às emoções, vulneráveis,
permite que compreendamos o que é prioritário e o que nos afeta. Por
completo. Exatamente como a escrita faz conosco. E para tocarmos alguém
com ela, precisamos entregar o que há de melhor em nós, sempre nos
colocando no lugar do outro.
Isso
não é fácil, mas é tão bom. E é um exercício mesmo. Diário. Eu não
sabia disso. Achei que bastava saber ortografia, expressar um raciocínio
de forma clara e objetiva. Essas coisas que aprendemos na escola, em
qualquer grau. Mas a escrita criativa e afetuosa proposta pela Ana me
ensinou que não é só isso. Essa escrita é um filho que parimos e
entregamos ao mundo, aos cuidados de cada um que terá a oportunidade de
ler aquilo que viajou de dentro de nós até sair em forma de palavras
pela ponta de nossos dedos. E essa experiência é tão forte quanto um
parto. É verdadeira e, muitas vezes, visceral.
É
essa emoção que, verdadeiramente expressa, afetará cada pessoa. É tudo
que você vai colocar ali quando trocar de lugar com o outro. Tudo que
está dentro de você. Tudo que você nem sabia que estava ali. Tudo que
você é, fez, viveu, se recorda. É quando você se coloca nesse lugar,
disponível, que consegue tocar a quem te lê. Sem enganos, sem mentiras,
sem se esconder. O que toca o outro é o quanto da sua emoção você
colocou em cada palavra. Você acha que é a cabeça que escreve, como você
concatena cada ideia, quão incríveis são os seus dados, ou ainda quão
inteligentes são suas citações. Não. Não é isso que realmente importa. O
que fará diferença no fim de tudo é quanto de você está no seu texto.
E
pensa que só quem usa esse aprendizado é quem trabalha com jornalismo,
publicidade, conteúdos ou quem deseja ser um escritor? Repense. A gente
escreve todo dia, cada dia mais. Emails, posts, relatórios, projetos,
anotações, textos corporativos, bilhetes para os filhos, mensagens de
Whatsapp, cartões de aniversário, receitas de família, diários. Tudo é
escrita. E alguém do outro lado vai ler, também com olhos e com coração.
A escrita afetuosa está em todo lugar, até quando você não escreve uma
letra se quer. Olhar para si antes de falar altera todo um modo de
pensar seu entorno, seja ele qual for, e isso se refletirá também na
forma como você escreve um simples bilhete, porque isso é você. Quando
compreende os conceitos da escrita afetuosa, até seu gestual fica mais
cuidadoso. Você se dá conta que tudo em você é expressão. Ficou claro
pra mim que, se todos nós pensássemos melhor, se ativássemos nossa
empatia o tempo todo, o mundo poderia ser mesmo completamente outro.
Para
mim tem sido. No meu horizonte é como se houvesse uma porta fechada e a
Ana chegou, me sorriu, me contou sobre quem era, quis saber de mim, me
mostrou os caminhos que a escrita percorre dentro da gente e me deixou
de cara pro espelho, de olhos fechados, coração na boca, lápis e papel
na mão. Eu respirei fundo e me senti completa, com tanta coisa pra sair
de mim. Foi assim então. Foi assim que eu, nesse dia, me pari.
| Texto escrito para o livro "Como se Encontrar na Escrita" da jornalista Ana Holanda |



Comentários
Postar um comentário