E ainda sobre costuras
Sobre
as conversas com minha mãe, queria dizer: ela preenche e enriquece meu
universo de expressões. Sincera ao extremo, todo dia mais, e costureira a
vida toda, o que aparentemente nada tem a ver com a sinceridade de que
falei, ela vai deixando fluir seu repertório longo de palavras e
sentenças curiosas.
Hoje,
liguei para ela de manhã, como de costume, e estranhei que ainda
estivesse na cama. Era dia de exercícios na piscina e ela já deveria
estar de pé. “Ué mãezinha, perdeu a hora?”, perguntei.
A resposta me soou poética: “Ah, minha filha, hoje tive um sono alinhavado…”
Parei. Respirei tão fundo, como num mergulho, sabe? Pra levar aquela expressão pra bem dentro de mim.
Ela
tem essa capacidade de me oferecer essas palavras combinadas entre si,
sempre assim de repente, no alongar do dia. E estranha minhas reações,
porque nunca vê nada demais no que diz e eu dou, toda vez, tanta
importância. Sempre me diz com aquela carga de voz pernambucana: “que
foi? Eu hein, Andréa! Deixa de besteira! Tudo tu faz um exagero!”
Eu gargalho forte, alto, muito. Adoro! Pergunto: “e o que é um sonho alinhavado, mãe?”
“Sonho
alinhavado é como uma costura de máquina: vai um pouco e para, vira o
pano, corre mais um pouco e para. Vira de novo. Para. É assim, todo
pausado.”
Agora me digam: exagero ou não quando acho isso lindo?



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