De joelhos

Estou eu no banco. Dia 01. Casa cheia. Todas as cadeiras ocupadas à minha volta. E lá vem ela. Toda bonita, esbelta e sorridente. O rapaz ao meu lado lhe cede o lugar. Naquele momento eu ainda não sabia, mas a vida…essa doida… adora me presentear. Ela me olhou simplesmente, sorriu e disse: “Sabe, menina, hoje às 4h30 o rádio me despertou, cedinho mesmo, e tava tocando um forró tão gostoso, que como num sonho já me vi ali dançando, sacolejando todinha de tão bom que era!” Ah, pessoas, vocês não sabem a gargalhada boa que nós duas demos. Pronto. Quem me conhece sabe. O presente estava ali e me foi generosamente colocado no colo. Conversamos muito, eu e D. Maria do Carmo, até chamarem meu número. Conversamos mais depois, até chamarem o número dela, porque, claro, voltei para que acabasse as deliciosas histórias que me contava sobre sua vida. Como uma mineira legítima, boa de papo, ela me disse que uma amiga havia lhe dito, certa vez, que em Aparecida do Norte, Nossa Senhora da Aparecida falava com os fiéis. Aos 30 anos, ela precisava contar umas coisas para a santa e resolveu ir até lá. E foi. A pé. Pela estrada, pelo mato. Dia e noite, sem que lhe faltasse coragem, comida e café. Chegou lá, a Santa não falou uma palavra sequer, mas ela agradeceu mesmo assim. E voltou. A pé. Sem que lhe faltasse fé. O povo pelo caminho lhe ofereceu abrigo, comida, conversa. Nunca gostou de ficar parada essa senhora. E o tempo passou. Ouviu falar de uma rua no Rio um dia. Rua do Russel, ela se lembra. Achou curioso esse nome e teve vontade de vir pra cá por causa disso. Veio. De ônibus. Ufa! Uma mulher lhe ofereceu ajuda, abrigo, trabalho e D. Maria do Carmo ficou com ela por muitos anos. Nunca mais foi embora daqui. Aqui se casou. “Minha menina”, ela disse diante de meus olhos já tão encantados, “nunca senti medo na minha vida e nunca tive nenhuma porta fechada pra mim”. A essa altura, ela estava sentada e eu ajoelhada no chão, com as mãos em seus joelhos. Sorri agradecida. Disse-lhe o quanto estava feliz por termos nos encontrado e conversado. Ela passou a mão no meu rosto, com olhos de avó, deu uma boa gargalhada e disse: “Eu também, minha filha, eu também. Foi a história do forró que nos uniu”. Mais gargalhadas. Ninguém ao redor entendeu nada. Não vi o tempo passar. E estou, certamente estou, ali, de joelhos, até agora.

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