De bandeja
De bandeja te entrego as palavras que passam por mim, distraídas. Elas
não sabem que as observo. Mas…olha…veja…tem essa que saculeja e essa
outra que se encosta exausta, sem nem saber mais o que dizer sobre si
mesma. Tem uma que é vôo, a palavra que almeja, que quer tanto sair do
lugar. Que deseja. Subir. Flanar. Pousar. Essa palavra tão serena que só
quer se deixar ficar. Em qualquer lugar. Ela anda de mãos dadas com
ninho, uma palavra toda emaranhada, desarrumada, que sempre aquece o
coração em desalinho e se parece um tantinho com lar, essa que é em si
um pouco como uma bandeja, onde, nos dias vazios, nos servimos amor
próprio, quentinho, com uma fatia bem doce de torta de cereja.



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