Cena da Infância
Eu
tenho isso de muita gente em volta. Sempre foi assim. Será que a gente
aprende na infância essa coisa de se rodear de gente? Bem, não sei. Eu
aprendi.
Vim
de família pernambucana, numerosa, festeira, gargalhadeira, barulhenta
que só. Povo que fala alto senão nunca é ouvido. Gente que enche a mesa
de comida de todo tipo: seca, molhada, com farofa, com fumaça, com
chamego. Hmmm…tão gostoso! Além da algazarra dos primos, ouço agora, bem
aqui na memória, a bateção dos pratos, o puxar das cadeiras, o suco da
fruta feito na hora no liquidificador…zum-zum-zuuuummmmm…”Henrique, meu
filho, deixa teu irmão…ô aperreio”…Eram assim os dias em Recife, quando
ia a família toda na Granja de Tio Bado, que se chama Ivaldo, mas esse é
um nome muito sério para um tio como ele.
Tio
Bado nos aconchegava na Granja, que na verdade era um sítio, mas esse
era um nome muito certinho pra uma terra como aquela. Eu gostava e
achava engraçado, porque chegava todo mundo de uma vez, mas ninguém se
encontrava na estrada. Até hoje, quando penso, não consigo entender como
era isso. Aquele amontoado de carros surgia simplesmente tudo junto no
horizonte. Do nada. Sem ninguém ver ou se esbarrar pelo caminho. Em mim,
sinto que a gente não via por conta da pressa de chegar, de abraçar, de
dar cheiro, contar piada, sossegar um pouco com aqueles muitos que
vieram nascendo da barriga generosa de minha avó, depois das barrigas
corajosas das filhas de minha avó e ainda das mulheres fortes que foram
casando com os filhos de minha avó. Não lembro de contar, mas olhando
assim…oxe…era muita gente e aquilo, aquela confusão de coração se
batendo, enchia meu corpo todo de uma euforia que fazia minhas pernas
saírem do chão, dando aqueles saltitos de alegria, sabe como?
A
Granja ficava num terreno imenso. Tinha cachorro, cavalo, porco,
galinha…tudo solto. Tinha muito passarinho enamorado do meu tio…tudo
preso. Eu achava já naquela época que amor daquele tamanho e naquela
quantidade jamais devia ficar preso, mas era mania dele. Mania que ele
tinha de deixar a gente solto e prender os passarinhos. Eu ficava
contrariada e nem sabia direito o que era liberdade, mas já sentia que
era uma coisa que devia ficar solta.
A
gente ali se soltava como a liberdade, debandava ribanceira abaixo, com
os pés no barro, os cabelos desgrenhados, o corpo soltinho no embalo e
os olhos zureteados só querendo chegar no destino: um poço de rio fundo,
de água limpíssima, com uma cachoeira cheia dos aconchegos e um
trampolim, que Tio Bado mesmo colocou no alto da pedra pra ensinar seus
meninos a saltarem aos rodopios beeem lá de cima. Que rebuliço que era!
Normalmente a gente descia sozinho, brincava e depois subia, mas nesse
dia era aniversário de minha avó e ela tava fazendo uma idade que já não
me lembro direito, só sei, isso posso dizer, que era muita.
Então,
todo mundo desceu pra fazer festa no poço. Era tanta alegria ali que
parecia que o verde da mata tinha ganhado mais vida, as árvores estavam
saculejantes como num forró e a família tava toda assanhada pra pular do
trampolim. E tu pensa? Pulou. Cada um pulou do trampolim festejando a
minha avó. Até minha avó do alto de sua muita idade pulou do trampolim
pra festejar a própria vida. E pulou gargalhando, soltinha no ar, aquela
véinha toda doida, com o cabelo todo fora do lugar. Ah!! Que momento!
Minha alma sorriu largo ali e agora, só de lembrar.
Depois
dessa folia, subimos de volta devagar, numa tagarelice incansável. Já
era bem tarde. Comemos com o riso solto na mesa e depois nos arrastamos
feito guaiamuns, assim meio de lado, até as redes, os tapetes, as
cadeiras de balanço espalhadas na varanda. O dia acabava. Alguém pegou o
violão e começou a tocar e outro alguém, amostrado que só, começou a
cantar. A noite chegou e as estrelas iluminaram o céu. Lembro tanto
desse momento. De ter sentido uma paz dentro de mim. De ter olhado em
volta, me ver rodeada por aquele amor todo e sentir que isso me
preencheu com as certezas daqueles laços. De ter encarado o céu de novo e
ver que ele era como a gente ali: um monte de estrelas cheias de luz a
piscar juntas, num efeito tão mágico, tão vibrante. Era muita a lindeza
desse meu pensamento e eu sentia meu coração bater calmo. Desejei não
esquecer esse dia. Desejei isso naquele momento, bem forte em mim.
É
por isso que até hoje me rodeio de gente. Pra me sentir em paz,
enlaçada em amor, brilhando uma luz conjunta, mesmo que cada uma pisque
no seu próprio tempo a cada vez. Eu bem disse isso no começo dessa
história. Aprendi que é tão bonito quando tudo acontece desse jeito
assim e eu só peço, nessa minha vida, que esse jeito possa ser sempre,
de preferência, bem juntinho de mim.



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