Cá te espero
“Me chamo ‘cá-te-espero’. Nada como um dia depois do outro e uma noite no meio pra atrapalhar.”
Essa
é a frase preferida de minha mãe quando quer nos dizer que chegaremos à
sua idade e só então saberemos exatamente o que ela quer dizer quando
fala de sua velhice. E, quer saber? Desconfio que ela tem razão….pra
variar.
A
gente não sabe nada. Olho ao redor e tenho cada vez mais certeza de que
sabemos muito pouco sobre como lidar com os nossos velhos e com a
velhice que será também a nossa. Falta-nos consciência. Vivemos em
negação. Não nos apropriamos do real significado da velhice. Do fim de
todas as certezas sobre nós.
Falham
os movimentos. Falha a cabeça. O corpo, que conhecíamos tão bem, se
transforma num estranho. Olhamos no espelho e não nos reconhecemos. As
emoções se desencontram de nós. Vivemos sem saber qual será a última e
derradeira palavra e vivemos isso na velhice com muito mais intensidade.
Nada disso precisa ser triste, claro, mas admitamos: não é mesmo fácil à despeito de tudo que quisermos dizer.
Minha
mãe tem mania de falar de sua morte. Eu reajo super mal. É mito difícil
pra mim esse tema, porque quero que ela pense em viver e não em morrer.
Mas eu desconfio — lá vou eu de novo — que ela esteja querendo me
ensinar algo, quando fala tão insistentemente comigo sobre isso.
Tenho
muita dificuldade em imaginar minha vida sem minha mãe. Acho que isso
não é um privilégio meu. Todos devem ter essa mesma dificuldade. Mas…é
minha mãe. É natural que eu me sinta assim, não é?
Passamos
por tantas coisas juntas. Fui testemunha de toda sua fragilidade e de
toda a sua força ao longo de toda a minha vida. A vi vender óleo na rua
pra pagar passagem. A vi costurar vestidos para crianças no sobrado da
loja. A ouvi chorar no escuro do quarto sem saber quais decisões tomar. A
vi estudar muito pra passar em concurso público. A vi passar. A vi
trabalhar em dois empregos. A vi feliz ao terminar de pagar todas as
dívidas que não foram feitas por ela. A vi ao meu lado em absolutamente
todos os momentos até hoje. É natural que eu sinta esse medo de sua
ausência.
Ela
me perguntou outro dia: “você acha que quando a gente morre, a gente
consegue ver os que ficam de onde a gente está?” Eu disse que não tinha
como eu saber isso, mas que eu gosto de acreditar que sim. E ela me
disse: “eu também. Eu gostaria que sim.”
Que seja assim, mãe. Que seja assim. Por ora não quero pensar nisso. Prefiro deixar a noite no meio pra atrapalhar.


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